impressões digitais dos deuses

Joaquim Castro Caldas [1956-2008]
em 2001 as Edições Silêncio da Gaveta publicaram
o livro "impressões digitais dos deuses"
capa e fotografia de Daniel Curval
A minha homenagem e memória

what color hides the pain? - cut one

que cor esconde a dor?

quelle couleur cache la douleur?

?qué color se esconde el dolor?

welche farbe verbirgt sich der schmerz?

UNPHOTOGRAPHABLE

A cerca de dez metros avisto-a. Tomo uma decisão repentina. Tenho essa distância para tirar do bolso e à passagem lançar uma moeda. Esta cai num estojo de viola para junto das poucas que lá estavam. A minha deveria ter sido de mais alto valor. A sorte não o permitiu. Nunca tinha lançado uma moeda aos homens-ou-mulheres-estátua. Desta vez, tive uma vontade urgente de ver uma estátua-humana a mover-se para outra posição. Depois da moeda cair, isso não aconteceu. A estátua, com aspecto de mimo, não reagiu. Nestes dois ou três segundos entre lançar a moeda enquanto andava e esperava um movimento, uma mudança de posição, observei o máximo que pude, para as moedas, para o corpo imóvel e para a sua face. Num último instante, os seus olhos tristes e cansados, reviraram na minha direcção, foi o único movimento a que assisti. Olham-me e eu olho-os, sei que nos fixamos nesta fracção de segundo, a sua boca traça um esgar e ouço o som de uma palavra: obrigado. A estátua diz-me obrigado. Foi o agradecimento mais digno que ouvi na minha existência. Tudo isto não durou mais do que quinze segundos, o tempo de percorrer aqueles dez metros, passar à frente da estátua-humana e lançar uma moeda. Por aquela atitude senti um enorme respeito.
O silêncio agarra-se às raízes
de todas as árvores do mundo

concerto de Leonard Cohen

19 de Julho 2008. Finalmente assisti ao vivo a uma das minhas referências na música, o compositor, cantor e poeta Leonard Cohen. Um excelente concerto de 3 horas de uma qualidade sonora irrepreensível. Sem ecrans gigantes e outros artifícios a música e a poesia foram glorificadas. Acho que ouvi pela primeira vez a voz de um verdadeiro poeta. Ouvir somente a voz de Cohen quando falava sem música e dizia alguns poemas foi para mim o mais emocionante. Uma voz abençoada, grave, séria, clássica. Um deus do olimpo acompanhado por excelentes músicos e magnificas vozes femininas ofereceram-nos um concerto sublime, num cenário simples como convinha e ambiente sedutor. Penso que os homens deveriam voltar a usar o clássico chapéu. Com 73 anos acaba o concerto dizendo "i'm still working". Thanks my friend!
Alinhamento:
Dance Me to The End of Love / The Future / Ain't No Cure for Love / Bird On the Wire / Everybody Knows / In My Secret Life / Who By Fire / That's No Way To Say Goodbye / Anthem / Tower of Song / Suzanne / The Gypsy's Wife / Boogie Street / Hallelujah / Democracy / I'm Your Man / Take This Waltz /
So Long, Marianne / First We Take Manhattan / Sister of Mercy / If It Be Your Will / Closing Time / I Tried to Leave You / Whither Thou Goest